Santos e a sós


A solidão sobre a qual escrevo, é aquela que assola a alma de todo cristão fiel que se sente como "um peregrino em terra estranha" e como um estranho até mesmo entre os do seu próprio povo, como o salmista escreveu:
"Tornei-me estranho a meus irmãos, e desconhecido aos filhos de minha mãe" Sl. 69:8
A experiência a sós com Deus às vezes é tão pessoal e profunda que se torna difícil compartilhá-la com outros irmãos.
Mas, esse ponto da "solidão santa" é bem perigoso, porque aqueles que receberam algo novo ou palpável, pela fé, de Deus, acham que têm algo do que se gloriar. Uma cristã do passado disse certa vez:
"Pois, acima de tudo, a contemplação e o amor do Criador diminuem a alma a seus próprios olhos, e a enchem de temor reverente e sincera humildade; manifestando abundância de sentimentos caridosos em relação aos irmãos em Cristo."
Ou seja, uma experiência que leva uma pessoa a se exaltar e a diminuir seus irmãos aos seus próprios olhos certamente não veio da parte do Senhor. Tozer escreveu:
"À medida que crescemos na graça, crescemos em amor para com o povo de Deus. "Todo aquele que ama ao que o gerou, também ama
ao que dele é nascido" (I Jo 5:1)...
Toda verdadeira experiência cristã irá aprofundar nosso amor pelos demais cristãos.
Devemos então concluir que tudo o que nos separa pessoalmente, ou no coração, de nossos irmãos em Cristo, não vem de Deus, mas pertence à carne ou ao diabo. E, de maneira oposta, tudo o que nos leva a amar os filhos de Deus vem provavelmente de Deus. "Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros" (Jo 13:35)"
Sem dúvida um santo que anda a sós com Deus, no significado mais puro da frase, nunca será indiferente a esse mundo e aos perdidos que nele estão, é por causa dos esforços desse tipo de homens que nos encontramos aqui hoje.
Quando falo sobre a solidão dos santos não me refiro àquela que está enraizada no orgulho próprio da religião ou da falsa espiritualidade vivida por alguns. Para esse tipo de solidão voluntária, que é impulsionada pela soberba no íntimo do coração do homem carnal, a cura é o arrependimento e a simplicidade. Como um velho peregrino solitário disse uma vez:
"Devemos deixar de lado todo esforço para impressioná-lO, e ir a Deus com a singeleza de coração da criança...Não importa o que a igreja e as outras religiões digam. Na realidade o que precisamos é de Deus mesmo...Se agirmos dessa forma, Deus nos responderá sem demora."
"Eu disse: confessarei minha iniqüidade ao Senhor" Sl. 32,5
"E tu já perdoaste a impiedade de meu coração" Sl. 32,5
"Deus está próximo dos que trituram seu coração" Sl. 34,18
Agostinho, em dezembro de 399 d.C na continuação do sermão sobre o filho pródigo, disse:
"Quando o homem delibera orar, já lá está Aquele que lá estará quando ele começar a oração."
Há esperança para os soberbos também. Que isso dê ânimo a todos nós. Medite sobre essas coisas.
Agora que a soberba disfarçada e seu fruto podre foram denunciados, podemos continuar.
O Mestre dos mestres mesmo cercado de multidões e de discípulos também passou pelos momentos de solidão e incompreensão.
Frases como,"Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei com vocês e terei que suportá-los?..."(Lucas 9:41), podem ser entendidas como um "desabafo".
Não podemos esquecer de que ele é aquele que "veio para os seus e os seus não o receberam" e que era, e ainda é por meio da pregação de sua palavra, "um sinal de contradição" para a vergonha de muitos que tiveram o pensamento de seus corações expostos a luz que vinha de uma gloriosa vida sem pecado.
Isso atraí a atenção dos homens sem Deus e destrói todo crédito que os impostores possam ter. O homem tem a tendência natural de tentar destruir o que não consegue entender ou controlar.
Len Ravenhill disse a respeito da rejeição de Cristo:
"E não há nenhum lugar para Ele na estalagem; ficou um pouco mais velho, não havia nenhum lugar na Sua família, a Sua família o rejeitou... Ele foi ao templo, nenhum lugar no templo, o templo O rejeitou. E quando morreu não havia nenhum lugar para enterrá-lO; Ele morreu fora da cidade. Bem, porque em nome de Deus você espera ser aceito em todo lugar? Como é que o mundo não conseguiu se relacionar com o Homem mais sagrado que já existiu, mas consegue com você e comigo?
Temos feitos acordos?"
Sabendo disso, como podemos esperar sermos aceitos pelos habitantes da terra? Eles crucificaram o nosso Senhor.
E nosso Mestre sofreu sozinho. William B. Tappan pintou esse quadro para nós através desse poema:

"É meia-noite e no alto do monte das Oliveiras
As estrelas que brilhavam se apagaram;
É meia-noite agora no jardim,
O Salvador que sofre ora sozinho.

É meia-noite e afastado de todos,
O Salvador luta só com seus temores;
Nem mesmo o discípulo a quem amava,
Observa o sofrimento e as lágrimas do Mestre."

Os profetas e os cristãos verdadeiros também se dividiram e dividem esse mesmo sentimento.
Sei que alguns podem estar, neste exato momento, falando consigo mesmo:
"Eu não estou sozinho, o Senhor disse que estaria comigo até a consumação dos séculos, esse sentimento de estar só não é de Deus... e etc".
Vejam, Deus conhece a sinceridade do coração de cada um, mas "essa linha de pensamento é muito típica para ser real". As pessoas que negam o
sentimento de solidão na terra, em sua maioria, são aquelas que somente tiveram uma experiência superficial do que deveria ser verdadeiro, no seu entendimento do que é andar com o Senhor, sem conhecer a realidade do que é carregar a cruz nas costas.
Não podemos confundir a sensação de companherismo passada a nós através de nossos amigos com a presença de Deus.

A certeza de que nossa caminhada não é em vão, vem através da fé e não de sentimentos. Do mesmo jeito que as ferramentas mais fortes são usadas para lapidar um diamante, o sofrimento e a solidão são usados para forjar um homem de verdade. No processo,
ele pode ser aperfeiçoado ou destruído, só depende do que ele é feito.
Eu creio e sei, que Deus caminha com homens. Quanto mais nós rejeitarmos ao mundo e ele a nós, estaremos mais satisfeitos no Senhor e Ele em nós. Pois este fato é verdade:
"Habitamos num lugar que não é nosso!"
O mundo não é nossa pátria. Pelo menos não segundo os autores de Filipenses 3:12-20 e de Hebreus 11:13-16.
Tenho pena dos "cristãos" que lutam e exigem de Deus coisas terrenas e temporárias. Que os que anseiam por essas coisa fiquem com elas.
Nós, que queremos ao Senhor, devemos ser como a tribo de Levi, a qual recebeu o maior tesouro. O próprio Senhor(Nm. 18:20).
Eles não tiveram uma parte significativa da herança terrena, mas tiveram o maior de todos os tesouros, o nosso Deus e Pai, a Ele a glória pra todo sempre. Amém. Nós que aguardamos nossa herança, aquele que virá nos encontrar, temos motivos para nos alegrar na lembrança do Seu precioso sacrifício na cruz e na esperança que está por vir. Então, vamos suportar com paciência essa tempestade que vem contra nós, pois chegaremos do outro lado do lago.
"A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. Do mesmo jeito vocês estão tristes agora; mas eu os verei outra vez; o coração de vocês se alegrará, e essa alegria ninguém
poderá tirar." João 16:21-22

Sabemos que no fim das contas "Nenhum escravo não é maior do que o seu senhor". Se ele se sentiu só nos sentiremos também.

João Vítor
Ficarei em silêncio? Deus não permita!
Ai de mim, se me calar.
É melhor morrer, do que não me opor diante
dessa impiedade, que me faria participante da
culpa do inferno.


John Huss