Crônica do Semeado (para você missionário)


Lendo a parábola do semeador e o salmo 126 lembrei-me de muitos amigos e vários missionários . Veio forte a cena dos semeadores de hoje. Aqueles que falam de Jesus, visitam de casa em casa, servem o caído, cuidam do enfermo e enfrentam seus medos.

Alguns lutam a vida inteira contra problemas maiores que eles. É a seca do sertão que causa fome, miséria e exclusão social, do corpo e da mente. As famílias carentes e outras sem teto que parecem se multiplicar a cada dia nas grandes cidades. A enfermidade e grandes epidemias que assolam, sem piedade, justamente os lugares com menos assistência de saúde.

Alguns trabalham longe, aprendendo línguas complexas, estudando a cultura de um povo diferente, com clima diferente, sempre mais um lugar a chegar e uma nova barreira a ultrapassar. Outros trabalham perto, lutam nas selvas de pedra. Seu povo não alcançado encontra-se em condomínios fechados, no frenesi das ruas, hospitais lotados, escolas e cárceres. Falam de Jesus e saem de casa orando por oportunidades diárias – e não as perde.

O salmo 126 nos fala sobre a relação entre a caminhada e o choro. Quem sai andando e chorando enquanto semeia voltará para casa com alegria trazendo seus feixes, o fruto do trabalho. Para cumprirmos o ministério que Jesus nos confiou é necessário andar e chorar.

E é certo que muitos fazem ambas as coisas. Tantas idas e vindas, caminhos incertos, a impressão de que há sempre mais um passo a dar, alguém a ajudar, uma pessoa a evangelizar. E as lágrimas, que descem abundantes com a saudade que bate, a enfermidade que chega, o abraço que não chega, o fruto que não é visível, o coração que já amanhece apertado, o caminho que é longo demais.

Creio que temos andado e chorado. Mas voltaremos um dia, trazendo os frutos, apresentando ao Cordeiro e dando glória a Deus! Poderá ser amanhã, ou em algum momento ainda distante. Mas ainda não é hora de voltar. É hora de seguir, andando e chorando, com alegria no coração e sabendo que não trocaríamos esta viagem por nenhuma outra na vida. O grande consolo e motivação é que não andamos sós. Ele está conosco. E maior é aquele que está em nós. Portanto, não desistimos, olhamos o horizonte que se aproxima e trazendo á memoria o que pode nos dar esperança.

Guarde seu coração enquanto anda e chora. Não perca a alegria de viver e caminhar, nem a mansidão, nem a oração, ou o humor, ou o amor. Não deixe de semear mesmo quando está difícil. Lance a semente em todas as terras. Uma semente há de germinar e talvez a mais improvável. A que menos promete. Não dê ouvidos áquele que diz que não vai acontecer porque a terra é árida, você é incapaz, o povo nunca muda, o problema é grande demais, o sol é forte, o vento está chegando. Lance a semente.

Lançamos as sementes que o Senhor nos deu e quase sempre há um preço alto a pagar, por isto choramos enquanto semeamos. Tenho observado os semeadores. Uma enfermeira brasileira atendeu 221 pessoas em um só dia na África sob um calor de 42 graus durante 17 horas ininterruptas. Era uma epidemia que chegava e os próximos dias seriam mais difíceis.

No marrocos, um missionário Britânico, para trabalhar com os moradores de lixo, passou também a viver no lixo, durante anos e anos. Um jovem Ganense viajou todo seu país alertando sobre a AIDS, de bicicleta e só com um sorriso nos lábios. Era ele mesmo portador do HIV. Um pregador de rua, falando em uma praça em Manaus, incasanvél, durante horas em uma segunda-feira á tarde. Gritava e dizia: hoje é meu dia folga, e estou aqui e não em casa, porque vocês são importantes para Deus.

As sementes são diferentes. Para lança-las é preciso chorar, pois frequentemente, há um preço a pagar. Um pagou com o suor, o outro com único dia de folga. Pague o preço, lance a semente e sirva a Jesus. Abraçe o que também anda e chora que está ao seu lado. Ele talvez se sinta só e pense que é o único que chora enquanto caminha.

Andar e chorar é cumprir a missão. É também um grande privilégio. Um dia você voltará... mas talvez não seja hoje. Se você pensou em desistir da sua caminhada e o coração abatido, não encontra mais prazer em semear, olhe para o alto e faça um compromisso com seu Deus: mesmo chorando, andarei um pouco mais! Sim, haverá o dia de voltar... mais ainda não chegou. Na força do Senhor continue a caminhar... e chorar... e semear... e sorrir, porque estamos aqui, na lavoura do Pai. Não há lugar melhor.

Plantando Igrejas de Ronaldo Lindório - Ed Cultura Cristã

As lágrimas do Leão


C. S. LEWIS: "AS LÁGRIMAS DO LEÃO"

Numa das Crônicas de Nárnia, “O Sobrinho do Mágico”, C.S. Lewis mostra o herói (Digory) a ser obrigado a escolher entre obedecer ao leão (Aslan) e conseguir a cura da sua mãe, que está à morte. Aslan é a figura que representa Jesus. Digory vê as patas enormes e as garras do leão e fica cheio de medo. Mas, por um momento, Digory fixa os olhos de Aslan. O leão inclina a cabeça para mais perto do rosto de Digory e este apanha a maior surpresa da sua vida. Nos olhos do Leão há lágrimas grandes a brilhar. Neste momento Digory percebe que quem sente a doença da sua mãe, ainda mais do que ele próprio, é Aslan.
Em 1908, quando ‘Jack Lewis’ (Jack, era como seus familiares o chamavam) tinha nove anos, a sua mãe faleceu de cancro, apesar de todas as suas orações a pedir a sua cura. E nessa altura sentiu que perdeu também o seu pai, que se retraiu na sua dor e nunca mais soube lidar com os seus dois filhos (Jack e Warnie).
Não aconteceu na vida de Jack aquilo que aconteceu a Digory: Deus não o conquistou no momento da grande dor que sofreu. Quinze dias depois da morte da sua mãe Jack deixou Belfast, onde nascera, sendo enviado a um internato em Inglaterra sob a responsabilidade de um ministro anglicano duro e autoritário. Passou, depois, por outro internato que tinha o sistema de ‘bloods’ e ‘tarts’: os rapazes mais velhos tinham pré-adolescentes como escravos e, muitas vezes, amantes.
Depois, sob a influência de um tutor ateísta e racionalista, perdeu a sua ‘fé infantil, herdada’. Ganhou uma bolsa de mérito para estudar em Oxford, mas no princípio foi impedido de entrar por ter que ir combater na Primeira Guerra Mundial. Viu o sofrimento atroz da guerra mas ele próprio foi dispensado, graças a uma ferida ‘conveniente’. Voltou a Oxford em 1919 para estudar Línguas Clássicas.
Aprendeu a dar valor à magia, por influência do poeta irlandês, W.B.Yeats, e abandonou o racionalismo. Disse que os filósofos chamados realistas, como Bertrand Russell, não admitiam que as suas afirmações absolutas sobre a realidade estavam baseadas no pensamento – que é um acontecimento subjetivo. Deus usou a literatura para o ‘cercar’, colocando no seu caminho autores como o grande poeta George Herbert, do século XVII, e o romancista escocês do século XIX, George MacDonald. Lewis disse depois: “Os agnósticos falam alegremente acerca do homem que procura Deus. Sobre mim, nessa altura, podiam muito bem ter falado do rato a procurar o gato”. Converteu-se ao teísmo e, depois, comparou-se com um Filho Pródigo trazido para a casa do pai, ressentido e aos pontapés.
Alguns amigos e, de maneira muito especial, J.R.R.Tolkien, católico e autor do “Senhor dos Anéis”, desafiaram-no a considerar a doutrina da encarnação de Cristo. No dia a seguir a uma conversa longa com eles, foi com o irmão ao parque zoológico, no carrinho ao lado da moto dele. Jack conta a sua experiência assim:
“Quando partimos, não acreditava que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e quando chegamos ao parque zoológico acreditava”.
Lewis foi um autor e conferencista polemico. Fez parte de uma elite intelectual em Oxford, mas distanciou-se da maior parte dos seus colegas que eram racionalistas ou agnósticos ou, no caso de fazerem parte da sua igreja (a anglicana), eram teologicamente liberais. Lewis foi um crítico extremamente vigoroso da teologia do alemão, Rudolf Bultmann. Este considerava como mito quase todo o material dos Evangelhos, a ressurreição de Cristo e o mundo sobrenatural de anjos e espíritos. Como este tipo de influência era tão forte na Igreja Anglicana, Lewis numa altura queixou-se da dureza do seu papel - de ser missionário aos sacerdotes da sua própria igreja. Achou que este papel era horrível, mas considerava que, se não fizesse este trabalho, a Igreja dentro de poucos anos iria deixar de existir.
Mesmo assim, Lewis não acreditava na inspiração verbal da Bíblia e, por esta razão, apesar de ser ortodoxo em praticamente todas as outras doutrinas, não era convidado como conferencista pelas ‘Christian Unions’ (GBUs) do seu tempo.
Escreveu obras apologéticas a nível intelectual e popular. Uma delas foi sobre o «Problema da Dor». O livro é sensível, bem argumentado e, intelectualmente, à altura dos seus colegas na universidade. As limitações que tem devem-se ao fato de o seu autor, na sua vida adulta, como acadêmico e solteiro de meia idade, não ter grande experiência direta do sofrimento. Esta experiência viria mais tarde para a vida de Lewis, através de uma vivência pessoal que o “Leão com Lágrimas” iria trazer à sua vida.
Em 1956, casou pelo civil com uma jornalista americana, Joy Davidman, recém divorciada. Ela adoeceu com cancro alguns meses depois. Lewis pediu autorização ao bispo para se celebrar o casamento religioso, mas, como a Igreja Anglicana não admitia o casamento de divorciados, isto foi recusado. À revelia do bispo, um sacerdote anglicano amigo celebrou o casamento no quarto do hospital, em Março de 1957. Depois houve uns períodos de dor intensa, e outros de remissão. Em 1960, apesar da situação grave da Joy, conseguiram fazer uma viagem à Grécia, visitando muitos lugares de interesse histórico. Em Julho desse ano, Joy faleceu.
Depois desta experiência, Jack escreveu sobre a dor de uma forma diferente. Num livro, traduzido para português com o título “Dor”, põe em palavras todos os sentimentos em conflito, as contradições, as acusações contra Deus, que surgem naturalmente de uma experiência angustiante deste tipo. Levantou a questão se Deus não era um Sádico Cósmico, um viviseccionista louco que apanhava os homens como ratazanas no seu laboratório. Mas teve que concluir que não podia sustentar essa idéia. Mesmo assim acusou Deus de não responder – ou de adiar a resposta - às suas perguntas.
Um dos filhos de Joy (Douglas) descreve a realização gradual que Jack ganhou de que a sua dor estava a ser egoísta: estava a chorar, não porque a Joy tinha partido para outro lugar, mas porque ele já não a tinha com ele. De fato ela tinha sido liberta – mas, para Jack, a dor continuava. Mesmo assim, nas palavras do enteado, ele ‘superou a sua dor até ao ponto de conseguir funcionar novamente como ser humano e autor – mas nunca houve nenhum momento, no resto da sua vida, em que não estivesse consciente da sua perda’.
Três anos mais tarde, em 1963, Lewis, agora catedrático de Literatura Medieval em Magdalene College, Cambridge, faleceu após um ataque cardíaco. Tanto a nível de obras acadêmicas na área da literatura, como na área da apologética (intelectual e popular), como na área da ficção (para crianças e ficção científica), foi a figura mais destacada do seu tempo. E o que sobressai para nós é o fato de ter sido um cristão convicto, que conhecia ‘Aslan’, o leão. É este fato que o aproxima de cada crente sincero – o fato de ter olhado para os olhos do leão, de ter questionado, e de ter visto tão claramente as lágrimas nos Seus olhos.

Alan Pallister

Adaptação: João Vítor

As Trevas Não Machucam Ninguém


Pode parecer estranho, mas...

As trevas não machucam ninguém, mas levam as próprias pessoas se machucarem e umas as outras por não saberem onde estão...
Jesus Cristo é a luz que brilhou a nós, homens perdidos no escuro que tropeçavam uns nos outros. Ele é a Luz que nos levou a enxergar nós mesmos, nosso mau caminho, o nosso próximo e acima de tudo, mesmo que com dor nos olhos, a ele mesmo.

“Pois Deus, que disse: “Das trevas resplandeça a luz” , ele mesmo brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.
Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós.” II Coríntios 4:6-7

“O que são todos os demais dons”, diz Lutero, “fora deste dom, que o Espírito do próprio Deus, do Deus eterno, desce aos nossos corações, sim, para dentro de nossos corpos, e vive em nós, nos governa, guia e conduz!”

João Vítor
Ficarei em silêncio? Deus não permita!
Ai de mim, se me calar.
É melhor morrer, do que não me opor diante
dessa impiedade, que me faria participante da
culpa do inferno.


John Huss