"Amor" em Movimento?


"Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro." Carl Gustav Jung

Dá pra se notar que cada vez mais as massas evangélicas estão sempre sendo levadas pelas ondas que, indiscutivelmente, dão um belo “caixote” na igreja. E não bastasse isso, sempre a carregam para uma réplica ao que já está “fora de moda”, infelizmente isso é por puro reflexo religioso e não por uma devoção sincera e pura a Cristo. Vimos: “Venha para a Teologia da Prosperidade”, “Corra da ‘Teologia’ da Prosperidade”, “Venha para a ‘Teologia’ da Adoração e Ministério de Louvor”, “Corra da ‘Teologia’ da Adoração e Ministério de Louvor”, “Venha para a ‘Teologia’ da Revolução e da Reforma com o Piper, Washer, Driscoll”, “Corra da ‘Teologia’ da Revolução e Reforma com Piper, Washer e Driscoll”, “Venha para a ‘Teologia’ da Ação Social é o caminho”, ”Corra da ‘Teologia’ da Ação Social é o caminho”, “Venha para a ‘Teologia’ do Amor em movimento”...
Bom espero contribuir na vida de vocês que lerão esse estudo, digo “estudo” mesmo, é uma tentativa de trazer um pouco de luz para nós servos e aprendizes, não pretendo dar a “solução” para o cristianismo com essas palavras, mas quero compartilhar com vocês algo que temos aprendido, digo “temos” porque não dá pra se viver isso sobre o que iremos estudar aqui sozinho.
Tenho visto muitas pessoas levantarem essa bandeira de “Amor em movimento”, o slogan é tão bom que até a Natura (http://www.amoremmovimento.com.br/?gclid=CMa0n_TvyaMCFRafnAodvUM2vg) o está usando em uma de suas campanhas, se conseguirem o mesmo impacto que os “emergentes” estão tendo venderão muito.
Bom, infelizmente as pessoas que eu vejo abraçando essa causa são as primeiras a deixar de conviver e amar suas igrejas e pastores para poderem pregar esse tal amor que eles anseiam tanto em “movimentar”. Isso eu digo de modo geral, pelos exemplos que eu tenho visto ao meu redor. Sabendo disso quero compartilhar algo que tenho ouvido, visto e vivido aqui entre meus irmãos de minha cidade. O amor de Deus, segundo a Bíblia, que é o que mais falta hoje em dia, né?

Texto a seguir é uma adaptação de uma pregação do Ariovaldo Ramos

Amor e Poder – I João Capitulo 4

“O Amor de Deus
7 Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. 8 Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 9 Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. 10 Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. 11 Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros. 12 Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós. 13 Sabemos que permanecemos nele, e ele em nós, porque ele nos deu do seu Espírito. 14 E vimos e testemunhamos que o Pai enviou seu Filho para ser o Salvador do mundo. 15 Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus. 16 Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. 17 Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. 18 No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem
medo não está aperfeiçoado no amor. 19 Nós amamos porque ele nos amou primeiro. 20 Se alguém afirmar: “Eu amo a Deus”, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. 21 Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também seu irmão.”

“Tudo é força, mas só Deus é poder.”

Deus não é poder, Deus é amor. Deus tem poder, aliás, Deus tem todo poder, mas Ele não se identifica como aquele que é poder mas sim como amor. Talvez essa questão pode parecer rasa, mas não é.
A grande diferença entre o poder e o amor é que o poder se impõe e o amor aceita. E isso faz toda diferença, porque na medida que alguém se auto-identifica como poder este alguém não tem outra escolha a senão a de se impor, porque ele não pode aceitar nenhum desafio ao seu poder, permitir um desafio ao seu poder é negar-se a si mesmo. E Ele não pode negar a si mesmo, pois ele é poder. Ele não pode ser contestado no seu poder, porque ser contestado no seu poder seria ser contestado em sua identidade. Então não poderia existir nenhuma discordância, dúvida, desconfiança e desobediência.
Agora, o amor não, o amor aceita o outro. O amor não sofre nenhum prejuízo quando alguém não gosta dele. Ele não sofre nenhum prejuízo quando encontra alguém que desconfia. O amor não sofre nenhum prejuízo quando encontra alguém que se rebela. Porque o amor ama, não é necessariamente amado. É amor porque ama, é diferente.
Quando Deus diz que Ele é “amor”, Ele está dizendo que o que o caracteriza é: que ele ama e o amor aceita. O amor não sofre prejuízo quando encontra rebelião, dúvida, contestação, porque o amor aceita o outro do jeito do outro e, às vezes, apesar do outro. Então o amor não pode ser atingido, ele mantém por si só, porque ele ama. E um ato independente da resposta que receba, a primeira característica do amor é que ele aceita. Diferente do poder, o poder tem de se impor, porque se o poder for contestado e permitir a contestação, o poder se relativizou. E o poder não pode se relativizar.
Então, é extraordinário ver nas Escrituras que Deus se apresenta como o amor e não como poder, ainda que o tenha, ainda que tenha todo poder ele não se apresentou como “poder”, ele se apresentou como “amor”. Porque isso abre um leque enorme de convivência, pois o amor convive, ama quem o ama e ama quem não o ama, independente da forma como esse não-amor se manifeste porque o amor aceita.

Disposição para o sacrifício
É interessante perceber nessa fala de João que o que caracteriza o amor de Deus é o fato dele ter enviado seu filho. Versos 9 e 10.
O amor não perde nada quando não encontra amor ou encontra o ódio, porque o que caracteriza o amor é a disposição para o sacrifício. Que é como o apóstolo João descreve o amor de Deus. Deus sacrificou-se através do Seu Filho: o sofrimento do Filho é o sofrimento da trindade, a disposição do Filho é a disposição da trindade. E é isso que o João está dizendo, o que caracteriza Deus é amor e eu sei isso por causa do sacrifício. Pedro escreveu “18 Pois vocês sabem que não foi por meio de coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram redimidos da sua maneira vazia de viver, transmitida por seus antepassados, 19 mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito, 20 conhecido antes da criação do mundo, revelado nestes últimos tempos em favor de vocês.” (I Pe. 1) E é o sacrifício de Cristo que sustenta todas as coisas. Então Deus é amor porque Deus aceitou o sofrimento e o sacrifício.

Convivência

Porque se Deus não se apresentasse como amor Ele não poderia criar um mundo de consciências livres, pois não é possível conviver com arbítrio sem conviver com a possibilidade da rebelião. Não é possível conviver com o arbítrio sem a possibilidade da contradição e não é possível conviver com o arbítrio sem a possibilidade da desconfiança. Porque na medida em que Deus cria um ser que tem vontade e pode exercê-la Ele se determinou a ceder espaço para esse ser exercer a vontade dele mesmo que seja contra si, contra o próprio criador. Um ser que se define como “poder” não pode fazer isso, o poder não pode ser contestado, o poder não pode conviver com arbítrio. Não é à toa que todas as vezes que temos no cenário político um regime de poder, nós temos um regime de limitação do arbítrio pessoal; as chamadas liberdades individuais são imediatamente contestadas porque o poder não pode ser contestado. E quando um governo se caracteriza como um governo que está no poder e que assume um poder assim, não pode haver contestação, pois o poder não pode ser contestado porque contestar é negar o poder. Deus não caiu nessa esparrela, armadilha, porque o amor aceita inclusive a contradição, inclusive a rebelião sem deixar de amar. Portanto o que caracteriza o amor é a capacidade de aceitar o sofrimento, que é inerente a qualquer tentativa de conviver com o outro que tem arbítrio, que tem vontade e que pode exercê-la segundo a sua decisão. Quem não aprende isso não consegue amar de fato. Porque a grande armadilha, principalmente no mundo ocidental a partir da Era Romântica, do romantismo ou do idealismo, na filosofia, é a perspectiva de que o amor é um sentimento envolvente que não pode ser negado e nem contestado, que se alguém contesta o amor é uma pessoa fria, distante, que não merece ser amada porque o amor tem de ser correspondido... Se o amor tem de ser correspondido não é mais amor, Deus não caiu nessa esparrela.Quando Deus se definiu como amor, ele se definiu como aquele que se sacrifica, aquele que aceita o sofrimento da convivência, aquele que aceita o sofrimento da comunhão, aquele que aceita o sofrimento da comunidade, aquele que aceita o sofrimento da família, aquele que aceita o sofrimento do encontro, da vida. Que bom que Deus se apresentou como amor porque se Deus tivesse se apresentado como poder ele teria de ter destruído tudo lá no jardim do Éden, porque o poder não pode ser contestado.

Perdão

Em uma conversa certa vez me perguntaram: “Você acha que Deus pode perdoar isso?”, respondi, “Meu amigo a relação de Deus com o universo era uma ou outra, ou o Deus perdoava ou destruía tudo e Deus decidiu perdoar. O universo é sustentado pelo perdão de Deus. E Deus pode perdoar por que Ele é amor, porque o amor é capaz de aceitar. E não sofre prejuízo em ser contestado.”
Uma crise que temos na família quando a gente, principalmente nós homens que estamos na condição de pais e chefes da família segundo a nossa cultura, e sente que está sendo contestado na nossa autoridade, pois as pessoas que estão a nossa volta também tem vontade, também tem arbítrio. E aí nós temos de decidir o que é que nos caracteriza como pais: que nós somos amor ou se nós somos autoridades, se nós somos autoridades nós não podemos ser contestados, então a nossa reação a qualquer contestação será dura, nunca proporcional, porque quem se sente ofendido se sente muito mais ofendido do que o ofensor acha que ofendeu. Então a reação nunca é proporcional. Mas é a forma como nós nos apresentamos como a autoridade, a palavra final. A palavra final não pode ser contestada, porque se a palavra final for contestada então não chegou ao fim e se a palavra não é final não foi dada por autoridade. Então tudo acaba circunscrito a identidade do ser. O universo com toda a sua contestação a Deus está sustentado porque Deus se define como amor. Se Deus se definisse como poder não haveria mais universo, não poderia haver, porque o poder não pode ser contestado. O amor pode, porque o amor aceita, porque o amor entende que qualquer convivência se fará às custas do sacrifício, porque é convivência com o outro que tem vontade e que pode usar a sua vontade. Se usa mal ou se usa bem é outra questão. Mas a questão que se impõe é como eu me defino. Porque como eu me defino enquanto chefe de família ou amigo, vai definir, vai determinar a minha reação. Se eu me defino como autoridade, não tenho escolha, eu tenho de levar isso até o fim, e aí se houve discordância em relação a minha decisão, tenho de punir quem discordou e tenho de fazê-lo um exemplo a todos os outros que ousarem em pensar que o poder pode ser contestado. Mas, se enquanto chefe de família ou amigo eu me definir como Deus se define, amor, que eu sou aquele que está pronto para o sacrifício. Todos os que estão esperando de mim algo saberão sempre que serão amados até o fim, apesar de eu muitas vezes não concordar com o que eles estão fazendo, o amor não precisa concordar. Só ama. Aceita, espera, socorre, dá tempo. Mas isso não é possível sem o sacrifício.

Fim

Antes que você me pergunte como eu sei que Deus é amor, eu já lhe adianto, por causa da cruz. E eu sei que a cruz é anterior a todas as coisas. E eu sei que de alguma maneira quando a trindade, a família eterna, decidiu criar, entendeu que não havia como criar seres com vontade sem aceitar o sofrimento e o sacrifício, e aí o primeiro ato da família eterna foi aceitar o sacrifício, foi assumir o sofrimento, na certeza de que esse sacrifício não seria em vão. Valia pena criar apesar da dor de criar. Ainda bem que Deus se definiu como amor, porque se não eu não estaria aqui, nem você e nada estaria. Porque o que está, está em Deus, e está em Deus porque Deus é amor. Então o desafio que está para nós é o desafio de entender que qualquer relacionamento tem de ser por definição um relacionamento de amor, e de saber a partir disso conviver com o sofrimento de existir, porque Deus convive com o sofrimento de fazer outro existir.
Aos que dizem: “Eu não sei como que Deus não nos livra desse sofrimento, dessa angústia, não sei onde Deus está, eu sempre pensei que Deus faria alguma coisa!”
Digo: “Deus está fazendo muita coisa em relação ao seu sofrimento, você que ainda não percebeu. O problema que você tem uma definição de Deus que não é a que eu tenho, porque você define Deus como: ‘aquele que pode acabar com todo o sofrimento’, e eu defino Deus como: ‘aquele que aceitou o sofrimento para que tudo pudesse existir’, nós estamos definindo de forma diferente e aí como nós estamos definindo de forma diferente você não sabe como lidar com Deus diante do seu sofrimento, mas se você entender que Deus não é aquele que acaba puro e simplesmente com o sofrimento, que Deus é aquele que antes de tudo aceitou o sofrimento e por isso é que eu sei que um dia isso tudo vai ter fim, você vai encarar o sofrimento de outra maneira, o sofrimento é a conseqüência natural de existir com arbítrio e de lamentavelmente termos usado mal o arbítrio, mas Deus que sabia disso de antemão assumiu o sacrifício e o sofrimento de criar o que exigiria o seu sacrifício.” Quando nós percebemos isso a nossa relação com a vida, muda. A nossa relação com o próximo, com a família muda. Isso não quer dizer que nós não temos regras, isso não quer dizer que nós não criemos limites, Deus criou limites. Mas quer dizer que nós amamos os que seguem as regras e os que não seguem, os que entendem os limites e os que se ferem tentando ultrapassar os muros dos limites da existência. E tem outra coisa depois que você entra na existência, depois que você existe, você não sai mais, então qualquer atentado quanto aos limites da existência, a vontade de Deus, é um atentado contra si mesmo, o pecado é por si só uma espécie de autodestruição.

Então é extraordinário ver que Deus é esse ser complexo, profundo, apaixonante, desafiador e assustador. Um ser Todo-Poderoso que se definiu como amor, que assumiu que a sua identidade não estaria no seu poder, mas na sua capacidade de amar e se sacrificar. E é justamente por isso que eu e você sabemos que ele vai dar fim a esse sofrimento, porque ele sacrificou-se, mas triunfou ressuscitando no terceiro dia, ou seja, ele não é somente um ser que se sacrifica, mas é o ser que triunfa através do sacrifício. E baseado no triunfo dessa ressurreição que eu sei e você sabe que seu sacrifício de amor em função ou na direção daqueles a que você tem de amar, não será em vão, Deus assistirá o seu sacrifício e fará que com ele não seja em vão, acredite. E esse é o chamado de Deus pra nós nessa noite, redefinirmos a nossa identidade a partir da identidade dele. Foi isso que o apóstolo começou a dizer “Amados, amemo-nos uns aos outros... Porque Deus é amor.”

Amém

João Vítor
Ficarei em silêncio? Deus não permita!
Ai de mim, se me calar.
É melhor morrer, do que não me opor diante
dessa impiedade, que me faria participante da
culpa do inferno.


John Huss