Falar em línguas


O assunto de “falar em línguas” geralmente cria discussões cheias de controvérsia e emocionalismo.o mais freqüentemente considerado centro de perguntas na questão das línguas no Novo Testamento é se eram idiomas humanos ou um discurso estático e desconhecido, e se esse dom é ou não adquirível hoje. Embora essas perguntas sejam importantes, uma outra igualmente importante questão tem sido deixada de lado. Essa questão é se o que fala em línguas no Novo Testamento entendia ou não aquilo que ele mesmo falava. Não só um entendimento correto desse problema lançará uma luz nas duas perguntas acima, mas irá trazer grande cura ao nosso alcance evangelistico na comunidade carismática.

Os que falam em “línguas” atualmente desde Pat boone até os membros de uma congregação local, afirmam que eles não podem entender o que falam usando seu dom. se o Novo Testamento confirmar a afirmação deles, então é possível (é pensado por outros ser impossível) que esse dom de “línguas” é de fato de Deus. Por outro lado se o que falava em línguas no Novo Testamento entendia o seu discurso, então o dom do que fala em “línguas” hoje não é o dom do Novo Testamento. Quando um individuo afirma que tem a habilidade de falar em línguas de acordo com o Novo testamento, mas não entende o que diz quando a bíblia ensina que ele deveria, então não deve haver dúvida que ele não possui o dom bíblico de línguas. A questão, então, é uma importante: aquele que falava em línguas no novo testamento entendia o que ele mesmo falava?

Sim, ele entendia

Primeiramente o texto de 1 corintios 14:5 claramente afirma que o que falava tinha a habilidade de interpretar o que ele mesmo dizia. O versículo diz: “aquele que profetiza é maior do que aquele que fala em línguas, a não ser que interprete para que a igreja seja edificada.”

No original, a frase “aquele que fala” é um particípio que governa a clausula dependente “a não ser que interprete”. Portanto, aquele que falava era o mesmo que interpretava.

Nisso, Paulo assume a habilidade daquele que fala em interpretar sua mensagem. Se o apóstolo tivesse um indivíduo diferente em mente na segunda clausula que não fosse o mesmo que fala, ele teria usado um pronome indefinido (eis, “um”) como em 1 corintios 14:27. Portanto, de acordo com Paulo, aquele que falava em línguas de fato entendia sua própria mensagem.

Segundo, 1 corintios 14:5 também indica que para que a igreja fosse edificada, a “língua” deveria necessariamente ser interpretada. A igreja não poderia ser edificada a não ser que entendesse o que aquele que falava em línguas dizia. Paulo também afirma a mesma coisa em 1 corintios 14:16,17. ali ele argumenta que aquele que não sabe ou entende o que está sendo falado não pode ser edificado.

Edificação, portanto, implica e pressupõe entendimento. Com essa perspectiva note com cuidado a implicação de 1 corintios 14:4ª que diz: “Aquele que fala em línguas edifica a si mesmo.”. Edificação implica entendimento, e o que fala em línguas edifica a si mesmo, então deve ser o caso de o que fala entendia o que ele mesmo dizia. Dizer que ele não entendia é, nesse contexto, o mesmo que dizer que ele não era edificado. Mas, ele era edificado. Portanto, entendia.

Não, ele não entendia

Há duas maiores objeções a esse ponto de vista, a segunda sendo mais decisiva. Primeiramente, é argumentado que se a minha tese é verdadeira, então nenhuma situaç~~ao como a descrita por Paulo em 1 corintios 14:28 pode existir. Ali o apóstolo proíbe falar em línguas quando não há intérprete. Mas se o que fala pode interpretar, nunca poderia haver uma situação onde não houvesse intérprete. Em resposta, precisamos definir o que seria uma situação onde não há intérprete.

Como foi observado acima, em 1 corintios 14:27 Paulo usa o termo “eis” para indicar que alguém além daquele que está falando deve interpretar. Então 1 corintios 14:28 leva a uma situação onde não há ninguém para interpretar além daquele que está falando. A ordem não nega ou afirma a habilidade daquele que fala em interpretar, mas proíbe o falar em línguas onde não há outro individuo para interpretar a mensagem. A sabedoria nisso é evidente. Assim como alguns profetas “julgavam” os profetas que falavam (1 corintios 14:29), era necessário que houvesse alguém diferente junto aquele que falava em línguas para interpretar, para que a tradução fosse preservada de qualquer mau uso por homens enganosos.

Segundo, é argumentado que 1 corintios 14:14 nega nossa tese. O texto diz: “Pois se eu oro em línguas, meu espírito ora, mas minha mente fica infrutífera.” Já que a mente fica infrutífera, ele não pode ter entendido o que disse. Em resposta, nós devemos primeiro notar o termo grego que é traduzido como “mente”. A palavra é “nous”. Para entender o seu uso aqui é necessário notar o seu uso nos versículos 15-17. Aqui “nous” equiparado com edificação (e portanto entendimento). Ter “nous” é ter edificação e ter entendimento, o último sendo uma melhor tradução do termo em si. Paulo, então, estava argumentando que quando ele orava em uma língua o seu “entendimento ficava infrutífero”. Portanto, o apóstolo não nega a sua habilidade de entender, mas afirma a mesma. Ele escreve: “meu entendimento fica infrutífero.”

Isso nos leva ao segundo ponto. Para quem o entendimento de Paulo é infrutífero? Os dois versículos que precedem providenciam a resposta. No verso 12 o apóstolo encoraja a pratica desses dons que edificam a igreja (a assembléia). O versículo 13 argumenta que essa é a razão porque “línguas” devem ser interpretadas, para que a assembléia possa ser edificada. O versículo 14, então, afirma a razão do versículo 13. se alguém ora em uma língua não interpretada, então seu “entendimento fica infrutífero”. Para quem? Para a assembléia na qual o que fala está orando. O foco de Paulo não é que o que fala não entende, mas que o seu entendimento (nous) é infrutífero em relação a assembléia quando não é interpretado.

Conclusão

Portanto, aquele que fala em línguas no novo testamento entendia o que ele mesmo falava e tinha a habilidade de interpretar para outros. Então, quando você for confrontado por um carismático que afirma ter falado em línguas, faça essa pergunta a ele: “Você entendeu o que você mesmo disse?”. Se a resposta dele for negativa (como a maioria será), então você pode ter certeza que ele não possui o dom que o novo testamento descreve.

Depois, você pode também perguntar se ele é ou não capaz de controlar o seu dom. se a resposta for negativa (como a maioria será) direcione ele a 1 corintios 14:27,28. Ali, Paulo instrui aqueles que falam em línguas a controlar seu dom, até mesmo ao ponto de não falar. Se alguém que nos dias fala em línguas, não entende nem controla o que fala, então seu dom certamente não é de Deus.

“Unto you young men: Treatise on Tongues,” World evangelist 7.6 (January 1, 1979), 17.

Tradução: Harlindo João

4 comentários:

Vinícius Pimentel disse...

Graça e paz!

Achei o texto bastante interessante. Todavia, ele não explica algumas coisas. Gostaria de mencioná-las aqui.

1) No v. 13, Paulo diz "Pelo que, o que fala em outra língua deve orar para que a possa interpretar". Qual o sentido dessa exortação, se o indivíduo já possuísse o poder/faculdade de interpretar? A leitura do v. 12, estimulando os crentes a "procurar progredir, para a edificação da igreja", parece lançar luz sobre o v. 13, distinguindo o dom de falar em outras línguas do dom de interpretá-las.

2) O post menciona a questão do vocábulo "nous" e afirma que o sentido dessa palavra fica esclarecido se lermos os vv. 15-17. De acordo com a tese do autor, onde nossas trduções dizem "mente", podemos ler "edificação" ou "entendimento". Só que o autor mesmo só faz essa substituição no v. 14. Se fizermos a mesma substituição no verso seguinte, teremos um resultado que contraria a própria tese do autor:

v. 15: "Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento/edificação; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento/edificação."

Ora, este versículo, traduzido assim, diz que orar com o espírito (em línguas, vide v. 14) é DIFERENTE de orar com entendimento. A argumentação do autor fica completamente esvaziada...

Bem, mas continuemos examinando!

Soli Deo Gloria!
Em Cristo,
Vinícius

Lucas Louback disse...

Olá Vinícius obrigado pela participação no blog

Irei colocar minha opnião em cima do seu segundo comentário, após passarei para o primeiro

2)
No caso existe uma falta de concordância na substituição de palavras, do grego para o português, (algumas versões) acredito no empenho de alguns amigos meus que trabalham no desenvolvimento de uma nova versão, vejamos de uma forma mais “parafraseada”.

14 Pois se eu oro em um idioma que nunca aprendi, meu espírito ora, mas o meu entendimento não beneficia os outros, porque só eu entendo.
15 Então, o que farei? Orarei no espírito e também orarei com entendimento, em palavras que os outros possam entender. Cantarei no espírito e também cantarei com entendimento, em palavras que os outros possam entender.

Novamente se volta para edificação da igreja (que os outros possam entender) , a palavra "nous" não perde sua essência em comparação com o Verso 14, mais sim fica “mal” empregada em algumas versões, como o autor menciona: O foco de Paulo não é que o que fala não entende, mas que o seu entendimento (nous) é infrutífero em relação à assembléia quando não é interpretado.

1)
Usar o v.13 para argumentar a incapacidade do que fala não poder interpretar, nos levaria a “descartar” o verso 4 (A pessoa que fala em idiomas que nunca aprendeu e entende, edifica a si mesma), para haver alguma edificação é necessário à compreensão no demais seria algo subjetivo crer numa edificação sem a compreensão, e é dessa forma que os carismáticos e pentecostais se apóiam. O 16 e 17 novamente enfatizam a necessidade do entendimento para edificação (no caso da assembléia). Pela lógica à pessoa que entende algo de alguma forma têm a capacidade de passar o que entendeu (interpretar).
Teria que “descartar” também o v.5, como o autor menciona: No original, a frase “aquele que fala” é um particípio que governa a clausula dependente “a não ser que interprete”.

Porém: Não há como fugir do que Paulo menciona no verso 13, (confesso que tenho dificuldades). SUPONHO no encorajamento dele para que o mesmo que falou / entendeu, possa expor a tradução. Vejamos no literal: 13 Por isso, aquele que está falando em uma língua estrangeira ore para que a interprete. Vale a pena lembrar que o artigo “a” não existe no grego, é empregado para nossa facilidade, com isso daria para aumentar a tese do autor do “julgamento” (v.27, 29) para a preservação de qualquer mau uso por homens enganosos, mas isso seria outra suposição.

Porém (novamente rs) temos o 12:10, e 12:30 que daria para estender mais o assunto.

Mais como você encorajou prosseguirei na analise e no estudo do assunto, Obrigado Vini

Soli Scriptura

João Vitor disse...

Legal... :)

Soli Scriptura!

Jaime disse...

Paz!
Infelismente se tem pouca compreensão sobre o assunto. A confusão se dá pelo fato do dom de linguas se manifestar de diversas formas. Por isso o termo "variedades de linguas".
Entre elas: 1- linguas para edificação pessoal (I Cor. 14:4);
2- linguas para interpretação (I Cor. 14:5);
3-linguas com profundos gemidos para intercessão(Rom. 8:26);
4- linguas como um sinal para o incredulo (I Cor. 14:22), ex: Pentecostes.
A partir daí tudo fica mais fácil de se compreender.
Deus abençoe!

Ficarei em silêncio? Deus não permita!
Ai de mim, se me calar.
É melhor morrer, do que não me opor diante
dessa impiedade, que me faria participante da
culpa do inferno.


John Huss