As lágrimas do Leão


C. S. LEWIS: "AS LÁGRIMAS DO LEÃO"

Numa das Crônicas de Nárnia, “O Sobrinho do Mágico”, C.S. Lewis mostra o herói (Digory) a ser obrigado a escolher entre obedecer ao leão (Aslan) e conseguir a cura da sua mãe, que está à morte. Aslan é a figura que representa Jesus. Digory vê as patas enormes e as garras do leão e fica cheio de medo. Mas, por um momento, Digory fixa os olhos de Aslan. O leão inclina a cabeça para mais perto do rosto de Digory e este apanha a maior surpresa da sua vida. Nos olhos do Leão há lágrimas grandes a brilhar. Neste momento Digory percebe que quem sente a doença da sua mãe, ainda mais do que ele próprio, é Aslan.
Em 1908, quando ‘Jack Lewis’ (Jack, era como seus familiares o chamavam) tinha nove anos, a sua mãe faleceu de cancro, apesar de todas as suas orações a pedir a sua cura. E nessa altura sentiu que perdeu também o seu pai, que se retraiu na sua dor e nunca mais soube lidar com os seus dois filhos (Jack e Warnie).
Não aconteceu na vida de Jack aquilo que aconteceu a Digory: Deus não o conquistou no momento da grande dor que sofreu. Quinze dias depois da morte da sua mãe Jack deixou Belfast, onde nascera, sendo enviado a um internato em Inglaterra sob a responsabilidade de um ministro anglicano duro e autoritário. Passou, depois, por outro internato que tinha o sistema de ‘bloods’ e ‘tarts’: os rapazes mais velhos tinham pré-adolescentes como escravos e, muitas vezes, amantes.
Depois, sob a influência de um tutor ateísta e racionalista, perdeu a sua ‘fé infantil, herdada’. Ganhou uma bolsa de mérito para estudar em Oxford, mas no princípio foi impedido de entrar por ter que ir combater na Primeira Guerra Mundial. Viu o sofrimento atroz da guerra mas ele próprio foi dispensado, graças a uma ferida ‘conveniente’. Voltou a Oxford em 1919 para estudar Línguas Clássicas.
Aprendeu a dar valor à magia, por influência do poeta irlandês, W.B.Yeats, e abandonou o racionalismo. Disse que os filósofos chamados realistas, como Bertrand Russell, não admitiam que as suas afirmações absolutas sobre a realidade estavam baseadas no pensamento – que é um acontecimento subjetivo. Deus usou a literatura para o ‘cercar’, colocando no seu caminho autores como o grande poeta George Herbert, do século XVII, e o romancista escocês do século XIX, George MacDonald. Lewis disse depois: “Os agnósticos falam alegremente acerca do homem que procura Deus. Sobre mim, nessa altura, podiam muito bem ter falado do rato a procurar o gato”. Converteu-se ao teísmo e, depois, comparou-se com um Filho Pródigo trazido para a casa do pai, ressentido e aos pontapés.
Alguns amigos e, de maneira muito especial, J.R.R.Tolkien, católico e autor do “Senhor dos Anéis”, desafiaram-no a considerar a doutrina da encarnação de Cristo. No dia a seguir a uma conversa longa com eles, foi com o irmão ao parque zoológico, no carrinho ao lado da moto dele. Jack conta a sua experiência assim:
“Quando partimos, não acreditava que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e quando chegamos ao parque zoológico acreditava”.
Lewis foi um autor e conferencista polemico. Fez parte de uma elite intelectual em Oxford, mas distanciou-se da maior parte dos seus colegas que eram racionalistas ou agnósticos ou, no caso de fazerem parte da sua igreja (a anglicana), eram teologicamente liberais. Lewis foi um crítico extremamente vigoroso da teologia do alemão, Rudolf Bultmann. Este considerava como mito quase todo o material dos Evangelhos, a ressurreição de Cristo e o mundo sobrenatural de anjos e espíritos. Como este tipo de influência era tão forte na Igreja Anglicana, Lewis numa altura queixou-se da dureza do seu papel - de ser missionário aos sacerdotes da sua própria igreja. Achou que este papel era horrível, mas considerava que, se não fizesse este trabalho, a Igreja dentro de poucos anos iria deixar de existir.
Mesmo assim, Lewis não acreditava na inspiração verbal da Bíblia e, por esta razão, apesar de ser ortodoxo em praticamente todas as outras doutrinas, não era convidado como conferencista pelas ‘Christian Unions’ (GBUs) do seu tempo.
Escreveu obras apologéticas a nível intelectual e popular. Uma delas foi sobre o «Problema da Dor». O livro é sensível, bem argumentado e, intelectualmente, à altura dos seus colegas na universidade. As limitações que tem devem-se ao fato de o seu autor, na sua vida adulta, como acadêmico e solteiro de meia idade, não ter grande experiência direta do sofrimento. Esta experiência viria mais tarde para a vida de Lewis, através de uma vivência pessoal que o “Leão com Lágrimas” iria trazer à sua vida.
Em 1956, casou pelo civil com uma jornalista americana, Joy Davidman, recém divorciada. Ela adoeceu com cancro alguns meses depois. Lewis pediu autorização ao bispo para se celebrar o casamento religioso, mas, como a Igreja Anglicana não admitia o casamento de divorciados, isto foi recusado. À revelia do bispo, um sacerdote anglicano amigo celebrou o casamento no quarto do hospital, em Março de 1957. Depois houve uns períodos de dor intensa, e outros de remissão. Em 1960, apesar da situação grave da Joy, conseguiram fazer uma viagem à Grécia, visitando muitos lugares de interesse histórico. Em Julho desse ano, Joy faleceu.
Depois desta experiência, Jack escreveu sobre a dor de uma forma diferente. Num livro, traduzido para português com o título “Dor”, põe em palavras todos os sentimentos em conflito, as contradições, as acusações contra Deus, que surgem naturalmente de uma experiência angustiante deste tipo. Levantou a questão se Deus não era um Sádico Cósmico, um viviseccionista louco que apanhava os homens como ratazanas no seu laboratório. Mas teve que concluir que não podia sustentar essa idéia. Mesmo assim acusou Deus de não responder – ou de adiar a resposta - às suas perguntas.
Um dos filhos de Joy (Douglas) descreve a realização gradual que Jack ganhou de que a sua dor estava a ser egoísta: estava a chorar, não porque a Joy tinha partido para outro lugar, mas porque ele já não a tinha com ele. De fato ela tinha sido liberta – mas, para Jack, a dor continuava. Mesmo assim, nas palavras do enteado, ele ‘superou a sua dor até ao ponto de conseguir funcionar novamente como ser humano e autor – mas nunca houve nenhum momento, no resto da sua vida, em que não estivesse consciente da sua perda’.
Três anos mais tarde, em 1963, Lewis, agora catedrático de Literatura Medieval em Magdalene College, Cambridge, faleceu após um ataque cardíaco. Tanto a nível de obras acadêmicas na área da literatura, como na área da apologética (intelectual e popular), como na área da ficção (para crianças e ficção científica), foi a figura mais destacada do seu tempo. E o que sobressai para nós é o fato de ter sido um cristão convicto, que conhecia ‘Aslan’, o leão. É este fato que o aproxima de cada crente sincero – o fato de ter olhado para os olhos do leão, de ter questionado, e de ter visto tão claramente as lágrimas nos Seus olhos.

Alan Pallister

Adaptação: João Vítor

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Ai de mim, se me calar.
É melhor morrer, do que não me opor diante
dessa impiedade, que me faria participante da
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